MANIFESTO PARA UM MARXISMO TRANSVIADO

I. O TRANSVIADO DO MARXISMO

Afirmamos que a opressão que sofremos enquanto dissidentes sexuais da classe operária deve ser abordada a partir das ferramentas de análise e transformação da realidade que nos oferece o marxismo. Fazemos nossas as plavras das companheiras britânicas de Invert, quando declaram que “a dissolução das formas estáticas nas relações sociais se encontra no coração da dialética marxista”. O potencial transviador (queer) do materialismo histórico e dialético encontra-se, assim, na possibilidade de mostrar o caráter de classe, e portanto socialmente construído, de tudo aquilo que nos foi apresentado como natural e imutável. Não obstante, com frequência esse potencial radical de quetionamento da normatividade foi historicamente postergado nas organizações revolucionárias, resultando na perpetuação das ideias burguesas acerca da família, e, por consequência, do eros. São muitos os nomes de camaradas transviades (queer) que, por conta de sua dissidência, tiveram de abandonar a luta pelo socialismo: Pedro Lemebel, Mario Mieli, Sylvia Rivera, Nastasia Rampova, Nestor Perlongher, Jean Nicolas, Daniel Guérin, Herbert Daniel e Pier Paolo Passolini são apenas poucos destes. São mais ainda os nomes das camaradas transviadas, como o que se esconde sob o de Amanda Klein, que nunca conheceremos porque os preconceitos reacionários dos que outrora desejavam a revolução não repararam que a sexualidade também era uma relação de produção a ser revolucionada. Não estudamos, assim, as dimensões de classe do heterossexismo e do cissexismo unicamente enquanto algo que diga respeito a nossa vivencia como transsapabibixas, mas é a nossa vivência como transsapabibixas que nos permite advertir que a matriz heterossexual não está sendo incorporada às análises da totalidade capitalista, deixando inquestionado — quando não naturalizado — um aspecto central da hegemonia burguesa. Continuamos o legado de Leslie Feinberg: Nossa opressão nem sempre existiu, mas surgiu com a sociedade de classes. Usemos, como elu, uma velha chave para abrir novas portas. É o momento de permitir florescer o potencial transviador (queer) que sempre teve o marxismo.

II. A FAVOR DO ROSA, CONTRA A MORAL BURGUESA

Mesmo que o marxismo se orgulhe de ser contrário à ideologia burguesa, encontra-se constantemente julgando a si mesmo com base em padrões do que é decente ou sério, padrões construídos dentro desses mesmos valores conformados pelo capitalismo.

Não apenas isso, como em muitas ocasiões o marxismo se opõe fervorosamente a tudo aquilo que a moral burguesa considera de alguma maneira pervertido, geralmente àquilo que se considera afeminado. Assim, as estéticas e valores de organizações que se dizem marxistas adquirem cores arcaicas e folclóricas — e masculinizadas — com o objetivo de conferir-se um status concreto. Em Vermelho do Arco-Íris (VDA) reivindicamos tudo aquilo que a moral burguesa hegemônica não considera aceitável ou digno, já que não necessitamos da aprovação de ninguém que se guie por padrões nascidos na forja da exploração; e é por isso que hospedamos orgulhosas uma estética afeminada e brega, mais além do que a burguesia nos fez crer que era válido.

III. SEXO, GÊNERO E FAMÍLIA

Sustentamos que a matriz da diferença sexual não está na biologia, mas na economia política, particularmente, na instituição da família monogâmica burguesa. Proclamamos, assim, que a família produz a heterossexualidade e com ela, as realidades de homem e mulher. A heterossexualidade, como produto da etapa histórica da dominação burguesa, é muito mais que uma orientação do desejo, é o mecanismo que naturaliza a reprodução do estado presente das coisas. Assim, a ideia de que existem dois sexos separados não precede a produção — historicamente específica — da heterossexualidade. Os mandatos da masculinidade e da feminilidade hoje nomeados como gênero não são, dessa forma, a politização de diferenças naturais de nossos corpos, mas, em si mesmos, os próprios encarregados de produzir a ficção burguesa de naturalidade da diferença sexual. A mutilação genital sofrida por bebês intersexo mostra como o capital adapta normativamente os corpos na surdina, para fazer passar por inevitável a divisão do trabalho tal como existe no presente. Não obstante, nem homem nem mulher são destinos naturais, mas relações sociais necessárias para perpetuar um mundo dividido entre exploradores e explorados, assim como um produto encarnado dessa mesma divisão. Abolir a diferença sexual mediante a qual o capital institucionaliza nossos corpos como espaços de reprodução das classes sociais e da propriedade privada passa pela abolição da família, fruto de uma prévia abolição do trabalho assalariado.

IV. TOTALIDADE CAPITALISTA E AUTODETERMINAÇÃO

Em VDA declaramos que a opressão das pessoas transviadas não é anterior e nem alheia às relações de classe, mas que está inscrita nestas. Isto é perfeitamente aplicável a outras dinâmicas de opressão como o racismo, o capacitismo ou o sexismo, que, mesmo que se apresentem como independentes, formam parte das mesmas relações de produção e reprodução do capital.

Tomamos a visão unitária de nossa camarada Holly Lewis quando defende que “a classe social não é um vetor de opressão a mais, mas a mistificação de todas as relações sociais para colocá-las a serviço da produção de mais-valia”. Em consequência, não apenas rechaçamos qualquer posicionamento LGTBI interclassista, pois concilia interesses antagônicos, como também nos opomos a uma política obreirsta que perpetue a retirada do caráter de classe da sexualidade, apresentando-a como alheia às relações produtivas, em acrítica consonância com a divisão burguesa entre público e privado. Ou seja, dizer que a opressão de uma transsapabibixa é de classe não é algo que possa ser reduzido ao fato de que ela não possui os meios de produção, mas que a sua própria subjetividade como dissidente sexual é um produto da ordem capitalista.

Fazemos nossas as palavras das camaradas de Pinko, pois no capitalismo “a liberdade sexual ou de gênero que possuímos não é mais que a liberdade de reproduzir a ordem social vigente.” Questionamos as estratégias de falsa inclusão das dissidentes sexuais que a burguesia leva a cabo. Como expõe o antropólogo marxista Gianfranco Rebucini, essa inclusão na ordem capitalista se faz à medida em que nos converte em consumidores aceitáveis, às custas da expulsão de um Outro racializado. Adicionamos assim: também das dissidências que não se dobram, as psiquiatrizadas e as deficientes. Não queremos a igualdade liberal para que alguns possam subir a escada social, lutamos por uma política revolucionária que a derrube.

Afirmamos que a “autodeterminação de gênero” não pode ser alcançada dentro do capitalismo. O esforço de legislá-la dentro do marco normativo burguês não é apenas insuficiente, ao manter intactos os mecanismos sociais coercitivos, mas peca por insistir na naturalização da divisão sexual do trabalho. E mais, o gênero não pode ser visto de uma perspectiva individual, pois como dizem as camaradas de Pinko: “[o gênero] é atualmente o lugar onde se naturaliza o trabalho de reprodução das classes sociais. Mesmo que seja experimentado como algo profundamente pessoal — como a essência de cada um, talvez — trata-se de umas das experiências políticas mais centrais vividas pelas massas na sociedade capitalista. Da mesma forma, tampouco pode ser entendido como produto de uma narrativa biológica, como afirmam certas vozes que, longe de realizar uma análise materialista da opressão da mulher, persistem em uma narrativa reacionária e a-histórica. Só poderemos destruir as correntes que nos prendem em um ato coletivo, só alcançaremos a autodeterminação de gênero abolindo a sociedade de classes.

V. ABOLIÇÃO DA FAMÍLIA

Para a maior parte das pessoas um futuro sem família é tão inconcebível como um futuro sem capitalismo; é difícil imaginar o dia a dia sem esse sistema. O Estado capitalista joga sobre a família cuidados, formação, sustento e outras responsabilidades que deveriam ser coletivas, e por isso é compreensível que diferentes sujeitos da classe operária a percebam como um refúgio, ou mesmo como a única via para a sobrevivência. Essa percepção da família como bastião dos vínculos operários, face às formas líquidas dos afetos no neoliberalismo fomentou recentemente uma volta nostálgica que reivindica a hospitalidade da família, utilizando retóricas naturalizantes e binaristas que se distanciam da análise histórica materialista do capitalismo e de suas instituições.

Não obstante, a família é, antes de tudo, a reprodução não apenas literal — biológica — mas também social do regime capitalista. Um regime que tem como modelo a família nuclear, onde a prole é uma propriedade que deve ser dirigida na direção dos interesses da classe burguesa para garantir a subsistência da mais-valia, custeada pela unidade familiar. Os indivíduos que, consciente ou inconscientemente, não se inscrevem nesse modelo põem em perigo a estabilidade do regime familiar e, com isso, a estabilidade da matrix do capital. Por isso essas pessoas são as primeiras a serem empurradas para a reforma e, quando se provam irreformáveis, são exilados da economia política familiar. O Estado burguês, além disso, acentua a inviabilidade e a intranscendência de qualquer forma de solidariedade operária que possa ser construída à margem da filiação biológica pelas pessoas que historicamente ficaram de fora deste modelo. São experiências que atravessam os testemunhos de nossas transviadas mais velhas e das companheiras contemporâneas que tecem redes de apoio mútuo, formação e cuidados emocionais fora da lógica da família nuclear burguesa.

Sabemos que os espaços em que se tecem essas redes de sobrevivência, chamadas por Nat Raha de reprodução social queer (transviada) não deixam de perpetuar a ficção capitalista de que podemos cuidar apenas “das nossas” em unidades íntimas e domésticas. Compreendemos que a abolição da família não passa por reproduzir a ficção da família através da ideia de “famílias por escolha”, mas por um cuidado comunal para todes, que deve ser construído desde o berço de todas as vidas que o capitalismo, com sua lógica impessoal, decidiu que não importam.

Os sujeitos políticos transviados que, ainda assim, compartem um extenso legado histórico de marginalização, silenciamento e expulsão da família, tem sido e devem ser conscientes de que abolir o capitalismo implica portanto necessariamente abolir a sua principal instituição de reprodução: a família. Vamos voltar às palavras de Holly Lewis: “A abolição da família não é um chamamento a abolir os laços entre as pessoas que se amam.” O que buscamos é destruir a capacidade da classe capitalista de explorar e controlar nossas redes de apoio e nossos afetos.

Entendemos, em última instância, que as pessoas transviadas trabalhadoras, assim como outras comunidades oprimidas, estão na vanguarda da reprodução social do porvir. Assim, as vidas negras que o capitalismo despreza, as vidas transviadas que o capitalismo despreza, as vidas deficientes, psiquiatrizadas que o capitalismo despreza, contém o potencial imaginativo para as relações sociais do futuro comunista.

VI. ABOLIÇÃO DA EXPLORAÇÃO DOS CORPOS

Quando nos enfrentamos, como comunistas, à problemática do trabalho, tomamos como premissa que ninguém deveria trabalhar. O salário esconde uma relação de exploração da qual queremos libertar todos os corpos. A própria divisão do trabalho foi a geradora das problemáticas de classe, e portanto nos declaramos abolicionistas do trabalho assalariado.

Ademais, como pessoas transviadas dentro do marxismo entendemos que não poderá haver liberdade em questões de sexualidade enquanto vivamos dentro do sistema capitalista. Portanto, o objetivo das transsapabibixas operárias passa por acabar com a existência do trabalho e não apenas com a forma particular em que esse sistema exerce sobre a dissidência sexual.

Assim, nos desligamos da corrente mitificadora e obreirista do trabalho assalariado como “enobrecedor”, que não é nada mais do que uma armadilha do capital. Essa corrente apela a um suposto orgulho de classe, enquanto na realidade busca somente reproduzir a hegemonia capitalista enquanto obstaculiza o ímpeto revolucionário da classe trabalhadora, fazendo-a pensar que recebe algum benefício do mero fato de trabalhar. Ou seja: é como se tivéssemos de agradecer a nossos chefes e patrões por nos “deixar” trabalhar. O mito da realização do indivíduo mediante o trabalho assalariado é a antítese de nosso “labor” em VDA.

No entanto, reconhecemos que o lugar de exploração é o lugar de onde a classe trabalhadora se relaciona e se organiza, facilitando a coletividade e, dessa forma, tem potencial para gerar espaços com possibilidades revolucionárias e de solidariedades. Por isso, a burguesia tenta destruir qualquer espaço de organização, especialmente aqueles que surgem no âmbito da produção social — o elo fraco na ordem capitalista.

O ser humano tem a capacidade de desenvolver tecnologia que automatize os processos de trabalho até que nosso tempo seja liberado e possamos desenvolver outras atividades, para nós mesmos — não para sobreviver no capitalismo. Para nosso próprio desfrute, e não para nossa própria venda. É difícil imaginá-lo, certamente, em um ambiente de neoliberalismo onde até mesmo nossos passatempos e paixões foram mercantilizados para criar capital.

Por outro lado, entendemos que o objetivo da abolição do trabalho inclui a abolição do trabalho sexual. Não vemos contradição alguma entre esse objetivo e a ajuda às trabalhadoras em suas lutas para sobreviver ao horror capitalista. Como Silvia Federici, dizemos “também sou abolicionista: quero abolir o capitalismo; Eu quero abolir o trabalho assalariado; Quero abolir a exploração” mas também, “Não podemos dizer: este tipo de exploração é aceitável e este não”. Para nós, o abolicionismo do trabalho não implica uma aliança com propostas neoliberais baseadas em fantasias punitivas, que buscam dar mais poder ao Estado burguês, usando suas ferramentas repressivas e coloniais. Da mesma forma, como comunistas, nos opomos a exercer qualquer espécie de tutela a outres trabalhadores. Enquanto o que nos une é a opressão, a única coisa que podemos construir é a solidariedade.

Não obstante, ao abordar a questão da exploração dos corpos, é inevitável mencionar o tráfico de pessoas. Como enfatiza Holly Lewis, “o tráfico — sexual ou não — é um problema de economia política, não do mal ou do patriarcado”. A diferença entre o mercado de trabalho convencional e o tráfico de corpos está no fato de que o ser trabalhador se define a partir da exploração, e as pessoas escravizadas são elas próprias a mercadoria. A separação entre exploração e desumanização está diminuindo, mas traz “uma mudança de paradigma”. Pegando as palavras de Lewis: “o fato de uma transação econômica estar relacionada ao sexo não transforma magicamente a maneira como o capitalismo funciona”.

Emancipar todos os corpos de todas as opressões, para fazer perecer a heterossexualidade — criação do capitalismo — no processo.

VII. CULTURA PARA UMA NOVA SOCIEDADE

O poder do capitalismo parece inescapável, como no passado o direito divino dos reis. No entanto, o ser humano pode resistir ao poder, alterá-lo.

Ursula K. Le Guin

Imaginemos mundos para criá-los. A arte não é exclusivamente burguesa, não relegamos a estética — nos termos de Herbert Marcuse — a um lugar de emancipação “menor”. Acompanhamos figuras como Raymond Williams, que entendia a cultura como algo ordinário que está constantemente sendo produzido e reproduzido. Estamos empenhades em oferecer novos horizontes à comunidade com uma comunicação próxima: não pretendemos impor nada a uma massa ignorante porque não entendemos as pessoas como uma massa ignorante. Nossa intenção não é escrever para demonstrar o conhecimento que temos. Na verdade, a cultura que desenvolvemos aqui é da, pela e para a comunidade. Não queremos nem a cultura produzida para “o populacho” com interesses econômicos nem a tradição que a classe capitalista seleciona como distinta e elevada. Para a burguesia já somos os vilões que o oligopólio D*sney queercodificou: sejamos, pois, aqueles que oferecem uma direção comunista à cultura da classe trabalhadora.

Devemos analisar as formas como o capitalismo usa a arte para se reproduzir e para tentar nos convencer de que não há alternativa a esse poder “inevitável”. Tentaram extinguir nossas energias revolucionárias por meio de concessões que podem ser importantes para os indivíduos — a representação de pessoas LGBT na arte — mas são cooptados para nos tornar cúmplices da opressão capitalista.

Estudar também a arte transviada (queer) como um possível lugar de revolução, para sustentar e potencializar essas expressões, para encontrar novas formas de criação que agitem a estagnação do presente capitalista. Tirar também, à burguesia, suas próprias ferramentas. Quem melhor do que nós, as pessoas transviadas, que historicamente nos apropriamos dos insultos que têm sido usados contra nós, para mudar os significados hegemônicos que condicionam nossa forma de interpretar o mundo? Temos que recuperar genealogias. Em quantas escolas de cinema ainda se esconde que um dos criadores da montagem, Sergei Eisenstein, era homossexual? Quantas contribuições de pessoas transviadas para uma cultura emancipatória tentou-se apagar, por ambos os lados?

Declaramos guerra à hegemonia existente e embora conheçamos as limitações que o sistema capitalista nos impõe, nos propomos a produzir e vivenciar novas formas de vida em comum. Acreditamos que é possível uma hegemonia alternativa na qual possamos tornar dominantes essas formas emergentes.

VIII. CUIDAR-NOS EM MEIO À REVOLTA

Após a divisão sexual do trabalho, as feminilidades foram relegadas ao trabalho doméstico. O cuidado familiar era o pilar estável que sustentava as engrenagens do capitalismo. Estava em nossas mãos a responsabilidade de alimentar as bocas que em algum momento alimentariam outras bocas. O cuidado e a educação eram unidirecionais, altruístas, morais. A corrente hegemônica a dotou do biologicismo que já permeava os papéis de gênero feminino.

Durante os anos mais sombrios da história, as dissidências sexuais e de gênero foram forçadas a se esconder, a fim de evitar perseguição ou mesmo assassinato. Mas foi nesses anos de extrema marginalização e criminalidade que começamos a nos encontrar e a nos reconhecer. Reunir-se para sobreviver, para legitimar nossa existência. E com o passar do tempo, compartilhar cultura e identidade, e até mesmo vislumbrar um futuro de pertencimento à norma. Existíamos para o capitalismo, e às vezes podia mesmo parecer que éramos aceitas pelo sistema. Mas a que preço? Uma vez que nossas territorialidades foram conquistadas pelos interesses do capitalismo (na Espanha, bairros como Chueca, Torremolinos ou Gaixample, por exemplo, mas tantos outros pelo mundo), e os cartazes das transformistas e drags da periferia substituídos por RuPaul, todos os anos de aprendizado no autocuidado, na criação de espaços acolhedores, foram aniquilados para sempre. Este fato já foi observado no caso de Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, completamente santificadas pelo capitalismo hoje, mas que viviam na miséria absoluta como trabalhadoras transviadas. Resgatadas apenas para gerar mártires.

Com o aumento da violência contra as realidades LGTBI, especialmente as dissidentes, fizemos brotar mais um incêndio de radicalidade. Como na crise do HIV, como no regime de Franco, nós, marginalizadas, permanecemos solidárias em momentos de profundo desamparo e raiva. É nossa responsabilidade usar toda essa força contrarreprodutiva para nos organizarmos buscando — ou, em sua ausência, fundando — espaços acolhedores onde possamos desenvolver projetos pedagógicos e revolucionários. Queremos recuperar os espaços que nos pertencem, reunindo todo o corpo teórico e debatendo-o para construir com blocos de léxico firme, cimentados com cuidado e solidariedade. Reproduzamos assim as vidas que o sistema não quer vivas. Brice Chamouleau aponta a linha a seguir: “pegar em armas contra um mundo simbólico profundamente desigual e contra aqueles que reproduzem essas desigualdades sociais”.

Juntas somos mais de tudo. Saímos do beco em que havíamos nos escondido novamente após a revolução sexual — no qual sempre havíamos permanecido. Combatemos os preconceitos intracomunitários. Tentamos curar o rancor geracional. Éramos um exército de amantes. E lutamos. Por entendermos que nosso inimigo é o capital — e já que este favorece a concorrência, os nichos, a intolerância e a desconfiança — o mais combativo que podemos fazer é nos unir e cuidar de nós mesmas.

Encontrar em nossas relações o lar roubado, mas não se estabelecer; queimar tudo até que nossa casa seja o Universo.

IX. QUEREMOS TUDO

Se você deixá-los atacar os vermelhos, eles atacarão os negros, e se você deixá-los atacar os negros, eles atacarão as bixas. Estamos todos conectados, por isso temos que estar juntos.

Sindicato de Cozinheiros e Comissários Marinhos (Marine Cooks and Stewards Union) dos EUA.

Afirmamos que nada aterroriza mais a classe capitalista do que a solidariedade entre oprimidas e exploradas do mundo. Na luta, pessoas transviadas se entrelaçam em solidariedade com pessoas não-brancas, pessoas com deficiência, pessoas psiquiatrizadas, migrantes e com as lutas das mulheres. Construímos a partir de nossa práxis política solidariedades propositivas que compartilham um horizonte de emancipação comum com o restante das lutas. Como já diziam os camaradas da Third World Gay Revolution: suas vitórias serão nossas vitórias. Nossa liberdade só virá quando formos todes livres.

Sabemos que a classe dos capitalistas nos quer atomizades, porque, como Marx e Engels nos ensinaram, “o trabalho assalariado repousa exclusivamente sobre a competição dos trabalhadores entre si”. Eles usam nossas diferenças sexuais para nos manter separados. Ao grito de “bicha” corroem a solidariedade entre nós. No entanto, a classe trabalhadora cisheteronormativa não se beneficia da opressão das pessoas transviadas. Setores reacionários que se autodenominam comunistas entraram plenamente nesse jogo de divisão entre a classe trabalhadora cisheteronormativa e as pessoas transviadas da classe trabalhadora. Eles criam falsas dicotomias entre as necessidades da classe trabalhadora e um suposto lobby queer cujas necessidades consideram frívolas. Saúde pública ou linguagem inclusiva? Direitos trabalhistas ou banheiros mistos? Queremos tudo. Queremos o pão e também as rosas.

Precisamos reapropriar e ressignificar a palavra camarada. Para tecer as lutas do presente, todes precisamos construir um horizonte comum, uma ideologia suficientemente comum, um compromisso comum que vai além do compartilhamento de ações específicas. Como a camarada Jodi Dean nos lembra, camarada é aquelu com quem você pode lutar a longa luta. Para isso devemos construir um desejo comum compartilhado com as pessoas racializadas, com deficiência, as psiquiatrizados, as migrantes, as mulheres, a classe trabalhadora cisheteronormativa e nós, as dissidentes sexuais. É este desejo comum compartilhado que nos permitirá romper com o identitarismo e as fraturas: ir por tudo, transformar tudo e pedir tudo, não deixar uma única relação social intacta.

X. REVOLUÇÃO

A emancipação das dissidentes sexuais da classe trabalhadora tem apenas um caminho; rompamos com as cadeias das relações sociais capitalistas que nos prendem a uma velha instituição familiar na qual nossos corpos e nossas formas de nos expressão nunca serão plenamente possíveis. Vamos parar a roda giratória heteronormativa da mais-valia, vamos acabar com a violência disciplinar que a sociedade de classes exerce contra as vidas transviadas. Chega. da reprodução do velho mundo em nome do normal: tudo o que é aceitável merece perecer.

Depois da tormenta burguesa, somos o vermelho do arco-íris.

Deja una respuesta

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Salir /  Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Salir /  Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Salir /  Cambiar )

Conectando a %s